Fotos de william levy e sua esposa

Date: 15.10.2018, 01:28 / Views: 64342

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São Paulo, com toda a sua imensidão territorial possui inúmeras vilas antigas espalhadas por diversos pontos da cidade. Boa parte destas vilas foram construídas por industriais, que optavam por ceder moradias decentes aos seus funcionários próxima às suas instalações fabris. E uma delas, que abordaremos hoje aqui, é a Vila Maria Zélia.

A inauguração da Vila Maria Zélia em 1917 (clique para ampliar)

A HISTÓRIA DA VILA

Inaugurada em 1917, a Vila Maria Zélia começou a ser construída em 1912, pelo médico e industrial Jorge Street, para dar abrigo aos 2500 funcionários que trabalhavam na filial do Belenzinho da poderosa tecelagem Cia Nacional de Tecidos da Juta, cuja sede estava localizada nas imediações da Rua Gabriel Piza, em Santana.

A matriz era um sucesso, com funcionários trabalhando em tempo integral e a fábrica produzindo a todo vapor, inclusive em capacidade máxima, o que levou o empresário a ampliar suas instalações, optando por uma região como o Belenzinho que já recebia muitas indústrias à época e que poderia rapidamente dar abrigo a uma nova instalação industrial.

O terreno escolhido no Belenzinho foi adquirido do Coronel Fortunato Goulart, um grande proprietário de terras da região e sua extensão ia desde a atual Avenida Celso Garcia (nas proximidades do Marco da Meia Légua) até às margens do Rio Tietê, cujo traçado então era bem mais sinuoso do que hoje, já retificado.

Para projetar a nova vila operária, Jorge Street (foto ao lado), sempre preocupado com o bem estar de seus funcionários, procurou na Europa um arquiteto que pudesse colocar na prática a sua ideia de instalações dignas, que não fossem caridosas, mas sim compatíveis com a sua visão de justiça social. Foi ai que a escolha recaiu para o francês Paul Pedraurrieux.

Pedraurrieux optou por inspirar-se nas vilas estrangeiras que estavam sendo construídas naquelas primeiras décadas do século 20, cuja inspiração não estava somente no plano de ruas, mas também presente nas edificações residenciais, escolas, e nos estabelecimentos comerciais que haveriam de ser construídos no local.

O que foi erguido era uma autêntica miniatura de cidade européia dentro da capital paulista, como se fosse um bairro à parte do Belenzinho. Foi construído ali uma capela, dois armazéns, duas escolas (meninos e meninas separados), um coreto, praça, campo de prática esportiva, salão de festas e ainda ambulatórios e consultórios médicos, avanços que não poderiam ser vistos nas demais vilas operárias da época (Nota: a preocupação com o bem estar do trabalhador por parte de Jorge Street era tanta que ele em 1931 chegou a ser diretor trabalhista no governo do Presidente Getúlio Vargas).

Planta atual da Vila Maria Zélia

A vila seria inaugurada durante o ano de 1917, após 5 anos de muito trabalho para deixa-la pronta. Todo o trabalho de Paul Pedraurrieux foi acompanhado de perto por Jorge Street que não queria que nada saísse do plano original. Graças a sua determinação tudo foi feito como o planejado, sem alterações.

A festa de inauguração da vila foi um grande acontecimento não só para o industrial mas para a Cidade de São Paulo. Para a cerimônia de inauguração vieram políticos e industriais de várias parte de São Paulo e o Cardeal Arcebispo de São Paulo Dom Duarte Leopoldo e Silva foi responsável pela missa inaugural, visitando e abençoando todos os cantos da vila, sendo seguido por uma enorme multidão enquanto percorria o local (foto abaixo).

clique para ampliar

Uma vez inaugurada, a vila foi rapidamente ocupada pelos operários que já trabalhavam na fábrica vizinha, cuja inauguração foi pouco antes da vila.

Já a fábrica, por sua vez, era tão grandiosa nos números como sua matriz no bairro de Santana. Em suas instalações destinadas a fiação, tecelagem e estamparia de algodão, a fábrica da Maria Zélia possuía no seu início de 2000 teares e 84 mil fusos, além de cerca de 3000 motores elétricos cujo funcionamento tornava a empresa uma das maiores consumidoras de energia elétrica da capital. Trabalhavam na época 2500 funcionários, que somados aos 3500 de Santana atingiam um total de 6000 funcionários no grupo.

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Apesar de todo este crescimento vertiginoso e da produção indo de vento em popa, o empresário acumulou dívidas cujo pagamento começou a se complicar. Para liquidar parte delas, Jorge Street decidiu vender a vila e a fábrica em 1924. Tudo foi comprado pela família Scarpa que ao tomar posse da vila imediatamente optou por mudar o nome do local, que passou então a ser conhecido como Vila Scarpa.

Mesmo não tendo agradado aos operários o novo nome da vila seria mantido durante todo o período que a família Scarpa ficou como proprietária do complexo. Em 1929, com a crise financeira que assolou o mundo e o Brasil, a família Scarpa também sofre com dificuldades para pagar algumas hipotecas. E é assim que o Grupo Guinle toma posse do local e reestabelece, tão logo assume a propriedade, o nome original Vila Maria Zélia.

Uma das ruas da Vila em 1917 (clique na foto para ampliar).

Os grandes problemas da vila começariam na verdade na virada dos anos 30, quando devido a débitos fiscais com o Governo Federal a vila e a fábrica são confiscadas pelo IAPI (atual INSS).

Após ter passado para o governo a fábrica é desativada em 1931.Ela permaneceria fechada por oito anos até ser comprada em 1939 e reaberta como a Goodyear. Durante estes anos os moradores puderam permanecer no local sem pagar, já que era procurado um destino para os imóveis residenciais. A partir de 1939 os moradores do local tornaram-se inquilinos, pagando aluguel ao IAPI até o ano de 1968, quando finalmente foram autorizados a comprar os imóveis em que moravam através do sistema BNH.

Já no caso dos prédios funcionais (as escolas e os armazéns) eles permaneceram (e permanecem até hoje) como propriedade federal do INSS. A capela local é administrada pela Paróquia de São José do Belém. As escolas e o armazém estão abandonados há décadas, mas a capela tem funcionamento normal.

O NOME MARIA ZÉLIA

Apesar de ser uma vila bastante conhecida e presente na memória da cidade, nem todos sabem quem é a Maria Zélia que é agraciada com o nome do local. A resposta é muito simples e está na própria família de seu fundador.

Maria Zélia Street aos 15 anos de idade.

Nascida em março de 1899, a bela jovem Maria Zélia Street era filha de Jorge Street, que ao todo teve seis filhos. Ela faleceu em 12 de setembro de 1915, quando a vila ainda estava sendo construída. Ao perder a filha tão jovem o empresário decidiu colocar o nome dela na vila como forma de homenagem. Ela está sepultada no túmulo da família localizado no Cemitério da Consolação.

A VILA NOS DIAS DE HOJE

Vista de uma das ruas da vila atualmente (clique para ampliar).

Passear pela Vila Maria Zélia hoje é um passeio ao mesmo tempo nostálgico e triste. Embora sempre que há referências à situação de abandono de alguns prédios remeta-se imediatamente ao INSS, é visível que muitos dos moradores jamais tiveram qualquer respeito à arquitetura original do local.

Hoje, são poucos os imóveis residenciais que permanecem ao menos com suas fachadas mantidas originais. Quase todas elas foram completamente descaracterizadas, sejam com fachadas hoje absolutamente irreconhecíveis, ou muros e portões que destoam com a proposta da vila. E ainda,  com imóveis que antes eram todos térreos e hoje chegam a possuir, em alguns casos, três andares.

Vista parcial de duas casas da vila, completamente adulteradas (clique para ampliar).

Os anos sem tombamento pelos órgãos de defesa do patrimônio histórico (o tombamento só chegaria em 1992) permitiu que muitos dos moradores descaracterizassem suas residências. E mesmo hoje ainda é possível encontrar algumas casas em obras. Há até construções bastante próximas ao original, mas que trocaram a pintura típica da época por cores berrantes ou por texturas. É possível notar que são a minoria dos imóveis que permanecem originais ou próximos disso.

Detalhe de alguns pórticos ainda preservados na vila (clique para ampliar).

Os prédios mais originais da vila são, ironicamente, os prédios abandonados do INSS que jamais sofreram alterações, e ainda algumas poucas casas que conservam heroicamente as características da vila fundada por Jorge Street há quase 1 século atrás.

Veja como estão algumas das construções da histórica Vila Maria Zélia.

AS RESIDÊNCIAS:

Um belo exemplo de casa preservada (clique para ampliar).

É possível ainda encontrar na vila algumas casas bastante conservadas, originais ou próximas do que eram em 1917. São residências como esta acima, que permaneceram preservadas e que são mantidas sempre impecáveis por seus proprietários e inquilinos. Como era uma vila particular, originalmente as casam não tinham muros, exatamente como era o conceito do arquiteto Paul Pedraurrieux, seguindo os moldes europeus.

Na galeria abaixo, você confere algumas residências interessantes da vila. Notem que a primeira foto da galeria é uma casa pertencente ao INSS por isso está vazia e a última delas (também do INSS) é muito pequena para ser uma residência, parece mais um posto de vigia.

Galeria das residências (clique na foto para ampliar):




OS ARMAZÉNS:

Vista de um dos armazéns da vila (clique para ampliar).

Dos dois armazéns existentes na vila um está em péssimo estado de conservação, enquanto o outro apresenta apenas condições satisfatórias. Em um deles é possível notar que o piso superior já ruiu e o telhado foi protegido por uma armação de ferro, já que a madeira há muito tempo apodreceu. Dentro de um deles há antigos equipamentos de tornearia.

Galeria dos armazéns (clique na foto para ampliar):



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A CAPELA DE SÃO JOSÉ:

Localizada em uma posição central da rua principal da Vila Maria Zélia, a Capela de São José fica bem diante da entrada da vila e está bastante conservada e preservada com seus detalhes originais.

Alguns anos atrás, a torre da capela estava bem deteriorada com pedaços dela se soltando, mas sofreu uma intervenção de restauro que colocou-a em ordem novamente. A capela faz parte da Paróquia de São José do Belém, não muito distante dali, e regularmente tem atividades religiosas no local. A primeira missa dela foi celebrada pelo Cardeal Dom Duarte Leopoldo.

Confira a galeria da Capela de São José (clique na foto para ampliar):



AS ESCOLAS DA VILA MARIA ZÉLIA

Na Escola de Meninas, uma das lousas sobrevive intacta (clique para ampliar)

Visitando a vila, talvez o que chame mais a atenção seja o estado lastimável e quase irrecuperável que se encontram as duas magníficas construções escolares que existem ali. A Escola de Meninos e a Escola de Meninas.

São dois prédios de dois andares construídos um de frente para o outro e que por muitos anos funcionaram como excelentes escolas, das melhores da região. Não era frequentada apenas por filhos de moradores da vila, mas também de moradores de ruas próximas como a Cachoeira e Catumbi. Pertencente ao INSS estão ambas em uma situação de extrema penúria, com mato tomando conta do interior da construção e com várias salas já sem teto.

A Escola de Meninas (esquerda) e a de Meninos (direita). Clique para ampliar.

A Escola de Meninas está com suas portas lacradas¹, não sendo possível entrar dentro dela para conferir como se encontra a situação interna, mas de fora dá para notar que apenas as paredes resistem intactas. Algumas instalações sobrevivem, mas largadas na ação do tempo não irão ser preservadas por muitos anos.

Já na Escola de Meninos foi possível entrar e conferir o quão abandonado está o prédio que por anos e anos foi uma referência de educação na região. É extremamente perigoso caminhar lá dentro. A sensação de que tudo pode vir a desabar a qualquer momento está presente em todas as dependências da escola.

A Escola da Meninos em 1917, bem diferente dos dias de hoje (clique para ampliar)

São salas de aula totalmente destruídas pelo tempo, com o forro do teto podre. O madeiramento de portas, batentes e até das lousas estão apodrecidos e muitos deles tomados por cupins. O andar superior só não ruiu ainda porque é escorado por uma profusão de toras de madeira, que dão uma curiosa impressão de estarmos em uma “palafita urbana“.

O restaurante está totalmente destruído, com azulejos se soltando e com uma imundície de local que há anos não recebe qualquer atenção por parte do INSS. As belas escadarias internas de madeira, que ligam o térreo ao andar superior, parecem não mais suportar o peso de uma pessoa. Aos fundos o corrimão de ferro da outra escadaria, que é de alvenaria, sofre com uma ferrugem que já desfigura a arte executada pelo ferreiro. No pátio da escola uma antiga arquibancada de ferro está coberta com uma lona azul, mas está tão ruim que talvez não possa ser reutilizada.

Andar nas dependências internas da Escola de Meninos é ter a sensação de que tudo ali vai desabar a qualquer momento. Abaixo dividimos as duas escolas em duas galerias distintas, confira:

Galeria da Escola de Meninas (clique na foto para ampliar):





Galeria da Escola de Meninos (clique na foto para ampliar):







CONCLUSÃO:

Detalhe de duas fachadas residenciais da vila (clique para ampliar).

Acredito que hoje não é mais possível chamar a vila toda de patrimônio histórico. Boa parte dela está completamente desfigurada com casas que não fazem qualquer lembrança com o projeto de Paul Pedraurrieux há quase um século atrás.

Algumas residências, inclusive, foram ampliadas sem qualquer auxílio de um profissional de arquitetura e tornaram-se verdadeiras aberrações arquitetônicas, daquelas que encontramos espalhadas por vários bairros paulistanos e do Brasil. E seria impensável nos dias de hoje, na realidade brasileira, em voltá-las novamente ao que eram em 1917. Até pelo fato delas serem residências particulares.

Como a vila está tombada alterações na fachada agora são proibidas, mas isto não quer dizer que não são feitas. Nas galerias acima é possível encontrar algumas casas realmente preservadas, mas também vemos casas que foram alteradas recentemente. Onde está a fiscalização ?

Um dos armazéns em pleno funcionamento em 1917 (clique para ampliar).

Já os armazéns e as escolas a culpa do estado lastimável em que se encontram, e da tragédia terrível que poderá ser um eventual desabamento, é culpa do Governo Federal e do INSS que são proprietários dos imóveis há décadas e nunca, jamais, fizeram qualquer movimento visando a proteção e preservação das construções a qual são proprietários. Curiosamente outro imóvel bastante conhecido do paulistano e igualmente abandonado também pertence ao INSS, o .

É preciso preservar enquanto ainda é possível, do contrário só restarão fotografias para contemplarmos. A bela história da Vila Maria Zélia não pode desaparecer jamais.

Curiosidade:

  • Depois da fábrica ser desativada em 1931, ela ficou sem qualquer atividade até 1936 quando nesta momento foi transformada em um presídio político, durante o Estado Novo. O presídio operou por cerca de um ano, sendo desativado no final de 1937. O local abrigou cerca de 700 presos políticos entre eles personalidades conhecidas da cena paulistana como o intelectual Caio Prado Jr.
  • Cenário constante de comerciais de televisão e filmes nacionais, entre eles a comédia “O Corintiano” de Mazzaropi.

Nota:

1 – Em 21 de julho de 2018 conseguimos finalmente entrar na escola de meninas, que teve seu interior limpo pelos moradores da vila. Agora encontra-se fechada (e com risco de ruir) a escola dos meninos. As fotos da galeria Escola de Meninas foi atualizada com inúmeras fotografias dessa nossa nova incursão ao local.

Artigo atualizado em 23/07/2018





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